Nesta edição falamos sobre a adaptação de livros para o cinema, um mapa que reúne os lugares onde se passam famosas estórias da Literatura, a programação da FLIP, um estudo que indica que roubamos a personalidade dos nossos personagens preferidos e sobre o livro Grandes Esperanças, do Charles Dickens.
Devo reconhecer meu pecado: li meu primeiro Charles Dickens aos 30 anos. Não sei qual desculpa mais esfarrapada posso dar: falta de tempo, oportunidade, desconhecimento… enfm, me resta apenas reconhecer meu erro. Eis que um dia, navegando pelos clássicos gratuitos da Amazon me deparo com Dickens. Seu nome me encarou, como se quisesse me dizer “por quanto tempo mais me deixará como próximo?”. Não tive outra alternativa que baixar Grande Esperanças.
Poucos autores me conquistam nas primeiras páginas e posso dizer que a escrita de Dickens realmente me cativou. A estória é realmente digna de entrar para a lista das obras imortais, com o principal elemento que faz um livro ser atemporal: conflitos universais.
O cenário é a Londres do século XIX, mas poderia ser qualquer grande cidade do século XXI. Como o nome já diz, o tema são as grandes esperanças que podemos ter em nossas vidas: enriquecer, casar, conquistar boa posição social. Mas tudo tem um porquê e uma consequência, da qual não se pode fugir. O autor faz críticas à sociedade inglesa da época, à sua divisão em classes sociais e à hipocrisia presente nas relações humanas. Ou seja, poderia ser uma crítica à sociedade atual.
Nosso querido Pip, um menino órfão criado rigidamente pela irmã, vê sua vida mudar a partir de uma grande (e misteriosa) oportunidade e é obrigado a amadurecer a duras penas e a reconhecer os reais valores da vida sozinho. Sua estória, contada por ele mesmo, nos aproxima do pobre menino e nos faz, além de compartilhar seus sentimentos, aprender suas mesmas lições. Pelo caminho, encontramos personagens dignos de livros próprios, como a Senhorita Havisham, uma mulher atormentada por ter sido abandonada no dia do seu casamento, resignada a viver reclusa e a se vingar dos homens através da sua bela e fria filha adotiva.
Enfim, um livro sobre um menino qualquer, que precisou de uma fortuna para reconhecer a importância das grandes amizades.
Livro: Grandes Esperanzas (Versão em Espanhol)
Auto: Charles Dickens
Edição: e-book disponível gratuitamente na Amazon
Páginas: Aproximadamente 468.
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Nesta edição falamos sobre a influência do sofrimento na vida dos autores em suas obras, as badaladas listas de melhores e piores livros, incentivos do governo à leitura e sobre Os irmãos Karamazovi, de Dostoiévski.
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Viver custa caro. Morrer também. Assim é para nós, seres humanos, os únicos seres do reino animal a ter consciência da morte (será que da vida também?), a recorrer ao suicídio e a desafiar a morte por puro prazer.
Mas entre tantos dogmas, crenças e afins, está a lei da selva, que em nossa sociedade apelidaram de lei do capitalismo, que resume tudo a dinheiro. Se não se tem dinheiro, a vida não é digna, muito menos a morte. É o dinheiro que define em qual bairro vamos morar, ou em qual cemitério seremos enterrados. É também ele quem define os móveis da nossa casa e a madeira do caixão. Rico tem plano de saúde, pobre faz plano funerário porque, esperamos, do outro lado deve ser melhor estar.
E assim vamos resumindo a razão de nossas existências a ritos de passagem: o casamento, o nascimento dos filhos e a morte, que deve ser celebrada com a mesma pompa dos outros. Flores, comida, anúncio no jornal – maior que o do vizinho, claro -, missa na igreja e lágrimas. E tudo custa o tal do dinheiro.
Lembro-me bem quando era criança e vivia numa cidade do interior. Diferente das capitais onde as notas de obituário se espremem nos jornais, a morte era anunciada em carro de som, como convite para a anti-festa. Era um acontecimento diário, porém extraordinário, quando todos deixavam o que estivessem fazendo para escutar melhor as palavras que vinham daquele fusca. Era o último espetáculo do morto na terra. E, de consolo, por esse já não teria que pagar.
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Nesta edição falamos sobre narrativas curtas x narrativas longas. O mercado de ebooks e seus entraves no Brasil, a divulgação dos prêmios Pulitzer 2012, e sobre o livro O estrangeiro, do Albert Camus.
O ensaio de Albert Camus comentado no podcast se chama O mito de Sísifis.
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Quando Aomame – a nada convencional protagonista do livro – desce as escadas de emergência de uma movimentada autopista de Tóquio, ultrapassa o portal que separa o ano de 1984 real de uma realidade paralela, à qual decide chamar 1Q84. A então fisioterapeuta – e assassina de aluguel nas horas vagas – se surpreende com os absurdos do seu novo mundo, à primeira vista, visíveis apenas para ela.
A realidade fantástica é presença cativa nos romances de Haruki Murakami, que mesmo ambientados no seu país de origem, o Japão, são aterritoriais, com personagens construídos em cima de dilemas presentes em qualquer sociedade. Neste romance, considerado por alguns críticos o ápice da escrita do autor, Murakami acrescenta alguns elementos que ajudam a compor um clima de ação, à medida que a estória vai se desenvolvendo. Conflitos familiares, solidão, comida e gatos são os temas dos quais o escritor nunca abre mão.
Este também é seu maior trabalho, que terminou sendo dividido em três livros que somam mais de 900 páginas. Em alguns países, os dois primeiros foram publicados em uma única edição e foi uma dessas que eu li, ao ter acesso a um exemplar em espanhol.
Murakami é um daqueles escritores que faz você ter vontade de ler na língua original – ato impossível para mim que não sei japonês – pois, fanático por música, principalmente a clássica e o jazz, sua escrita se assemelha a uma composição musical e imagino não só o trabalho que isso deve dar a um tradutor, mas como perdemos muito no caminho.
Mesmo assim, ainda é possível perceber suas intenções ao mergulhar numa estória que beira à loucura, ao mesmo tempo que usa elementos há séculos utilizados na literatura: a saga de uma amor impossível, ora prejudicado, ora ajudado pelo destino.
Na primeiras páginas, ao entrar em um táxi, nossa querida Aomame ouve a Sinfonietta do tcheco Leos Janacek, como que apresentando a nós, leitores, a trilha sonora oficial do livro. E se posso lhe fazer uma recomendação: acomode-se em seu lugar de leitura preferida, sirva-se um bom vinho, ponha a música de Janacek no fone de ouvido e mergulhe no mundo fantástico de Murakami. Mas mergulhe mesmo, sem medo de ser surpreendido com uma Tóquio de duas luas.
Livro: 1Q84 (Livros 1 e 2)
Autor: Haruki Murakami
Editora: Tuquets
Paginas: 737
(Lançamento prometido para este ano aqui no Brasil, pela Alfaguara)
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Nesta edição, falamos sobre Jornalismo e Literatura, o incentivo aos livros brasileiros no exterior, twitter de escritores, conselhos de Hemingway, García Márquez e outros para novos escritoroes, além de comentar Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s) do Truman Capote.
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Escrever sobre uma prostituta é um caminho fácil ao estereótipo. Por vezes exageradas pelos autores ou discriminadas pelo público, essas personagens quase sempre estão em meio a uma trama baseada no submundo da nossa sociedade. E como encontrar beleza em uma profissão tão estigmatizada? Como fazer o público (leitor) se apaixonar por uma personagem tão “suja”?
A tarefa nada fácil foi realizada por ninguém menos que Truman Capote – apontados por muitos como pai do Jornalismo Literário pelo seu célebre livro A sangue frio – que soube mostrar o lado doce e ingênuo de uma acompanhante de luxo de Nova York.
Eternizada por Audrey Hepburn no cinema, Holly Golightly – que não tinha nada de Magdalena Arrependida – era uma moça do interior que sonhava em fazer carreira no cinema e se casar com um homem rico. A sua simplicidade contagia seu vizinho escritor que, por ser homossexual (suposição), não a olha com o mesmo desejo dos outros homens e sente por ela um carinho especial. É ele quem narra as estrórias de Holly a partir dos descobrimentos que vai fazendo sobre ela.
Para mim, a genialidade de Capote está na simplicidade do texto, que conta a estória da menina de interior com grandes sonhos de forma muito leve. Em nenhum momento do livro, fica claro a profissão da protagonista (nem a homossexualidade do narrador), pois o autor deixa as suposições a cargo – e deleite – de nós leitores. É como observar tudo de uma janela indiscreta e fazer suposições e julgamentos sobre a pobre e doce Holly.
Livro: Breakfast at Tiffanys (Bonequinha de luxo, na edição em português)
Autor: Truman Capote
Editora: Penguin Classics
Páginas: 160
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Nesta edição falamos sobre Literatura e Moral, sobre a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil e sobre o livro O sol também se levanta, do Ernest Hemingway.
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Inquieto, perturbado, inconformado, atormentado. Adjetivos que podem ser utilizados para uma das figuras mais importantes da Literatura do século XX: Ernest Hemingway. Longe de ser um rebelde sem causa, Hemingway foi jornalista e fez da sua profissão a base da sua escrita, aparentemente simples e objetiva, mas reveladora de verdades incômodas.
Em seu livro O sol também de levanta, o autor, inspirado em uma viagem feita por ele mesmo com amigos, desenha o retrato de uma geração perdida em futilidades e ainda sem futuro certo após a Primeira Guerra Mundial. Em 1925, o grupo de amigos – expatriados ingleses e norte-americanos em Paris – viaja a Pamplona, na Espanha, para acompanhar a Fiesta de San Fermín, onde por tradição se realizam as touradas. Com sua escrita mordaz, Hemingway evidencia toda a crueldade cometida aos touros, em contraste com personagens que por vezes se comportam menos civilizados que um animal.
Sua crítica não é direta, nem obvia, mas sabe se encaixar na estória de forma a deixar clara a posição contra do autor, sem o apelo das lições de moral simplistas. Hemingway soube construir personagens sólidos sem fazer uso de descrições complexas e mostrou que, por trás da falsa ingenuidade de uma geração se esconde a crueldade humana.
Livro: O sol também se levanta
Autor: Ernest Hemingway
Editora: Abril (Edição de 1981)
Páginas: 264



